sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Sobre o medo





Um abraço, um laço, afago: Potência. Medo. Violação!

Nós, do sexo feminino, relacionamo-nos com a potencia da violação desde o início de nossa educação doméstica. Mensagens subliminares e diretas nos fazem identificar e entender quanto a nossa posição no jogo relacional entre sexos opostos e, também, diante da sociedade. Atendemos. Atentamos por Mérito. Dificilmente uma mulher brasileira chega a idade adulta sem sofrer nenhum abuso violento, violação de direito ou assédio por subordinação sexual.

Nosso ventre é sagrado e, como tudo o que é sagrado, que gera vida, pertence as leis do homem, antes que a de deus. Mas, diante de Estado de direito e de moral instituídos o nascituro tem mais dignidade do que o ventre que o dá vida. O resto é adulteração.

Somos frágeis, delicadas como o rosa (cor do sangue diluído em branco, cor da pureza), para não assustar, nem atiçar, porque é lógico: Se é casto só pode ser acessado por violação, o ventre entregue de bom grado não tem pudor, nem castidade, nem valor. O medo comprova a castidade, pertence a nossa esfera de emoção, que é oposta ao azul marinho e celestial.

Danças que exibem e sacodem o ventre são demonizadas e criminalizadas entre nós.
Atiçam o fogo interno, vermelho, único capaz de romper o medo.

Mentes incendiárias, vigorosas, violentas.
Consumidas. Comedidas. Comercializadas.
Entorpecidas. Enebriadas. Extasiadas,
alimentam o fogo, afastam-se do medo.

Das labaredas incandescentes do vermelho interior nasce a coragem.

Que compromisso pode se ter com o fogo que queima em nossas entranhas além das delícias que nosso mundo interior pode nos fazer celebrar e contemplar diante da Criação?

Como acordar num diálogo com alguém que reconhecemos por oposição, quando estar em oposição ao outro é tudo o que nos define diante desse outro? Apenas tornando-nos o outro, opondo-nos por consequência e posição a quem éramos anteriormente. Pulando de um polo ao outro e do outro de volta ao primeiro. Do masculino ao feminino. Do in ao yang. Do positivo para o negativo.

Da matéria para a energia, sabemos, oscila toda a criação, do ponto de vista da física quântica.

“Eu posso ser você, sem deixar de ser eu.”
(O Brasil de Darci Ribeiro, Ana Maria Magalhães.)

Mas, Aceitamos o medo com seu frio bloqueio das energias, do fluxo do fogo por nossas veias, paralisando nossos impulsos autênticos, interiores, criadores. Ardentes labaredas que surgem entre nossas pernas, abafadas num cruzar de pudor ardido em brasa.

Adoecemos em zonas de confortável recuperação permanente da coragem de viver em busca de um sentido para a rotina diária de existir, intelectual e afetiva, ainda que sexual, no mundo onde afogamos as mágoas e o ganso.

Sentir tudo. Sentir total.

“_ Tenho medo de ter medo.” Eu costumava dizer aos 19 anos de idade, enquanto fugia de meus medos sentidos.

Depois dos 40, sempre que identifico o medo habitando minhas entranhas, todo meu interior movimenta-se em busca frenética de conhecer tal sentimento, como faria um médico se soubesse o mal que tal emoção provoca ao organismo humano e ao meio ambiente terrestre. Procuro me curar do medo. Atenta a fonte de crença de onde surge o medo e ao propósito de prudência que ele pode me deixar de legado.

Sigo em mim, mas isso cansa.  

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