Eu era criança quando meus pais romperam com a cultura evangélica, tradição na família a duas gerações e assumiram a cultura “do mundo” com suas tradições comerciais, passando a orientar suas virtudes para ganhos materiais, conquistando o “céu” aqui mesmo e antes da morte. Estavam convencidos de que Deus não passava de invenção de homens para dominar homens...
O tempo passou, o suor trouxe
prosperidade. Quando chegaram os netos, meu pai passou a vestir-se de Papai
Noel para garantir a alegria das crianças e ficava tão convincente que os
vizinhos passaram a deixar os presentes de seus filhos com ele na véspera para
que o bom velhinho visitasse suas casas.
Quando meu sobrinho cresceu,
chegou o momento de contar a ele a verdade e desfazer a fantasia. Pense numa
criança frustrada, indignada, magoada, traída. Durante alguns natais, toda vez
que ele passava por um homem fantasiado de Papai Noel, cercado de criancinhas,
gritava: _ Falsário! E procurava alertar os inocentes: _ Papai Noel não existe!
É tudo mentira!
São muitas as fantasias que
orientam nossa cultura e nem sempre sabemos lidar com a revelação da verdade e
amadurecer com o mito. Meu mundo encantado chamava-se ESTADO DEMOCRÁTICO
REPRESENTATIVO, criado para nos libertar dos tiranos... Lembro-me de, na
infância, brincar de escritório com os panfletos que jorravam nas ruas durante
as eleições, das discussões acaloradas dos adultos, as bandeiras coloridas,
distribuição de camisetas, uma festa...
O primeiro voto a gente nunca esquece.
Votei no “Caçador de Marajás”!
Bons cidadãos dedicam-se a seus
projetos pessoais – casar, ter filho, escrever um livro e plantar uma árvore – enquanto
políticos eleitos estão trabalhando para garantir segurança, educação,
alimentação, moradia, transporte, lazer do coletivo... igualdade, fraternidade,
liberdade!
Trabalhar, pagar impostos e votar: _Não pense em crise, trabalhe!
A verdade me foi revelada no
curso de Ciências Sociais, depois de ler livros como O Abolicionismo, de
Joaquim Nabuco (www.culturabrasil.org/zip/o abolicionismo.pdf), A Ética Protestante e o Espírito
Capitalista, de Weber, de entender a diferença entre Estado (responsável pelo
serviço público, sempre sucateado) e Governo (grupos orientados pelo poder de
controlar pessoas, riquezas e terras. Violento e mentiroso.). A descrença tomou
conta de meu ser, deixei de votar. Estou entre os 29% da população que em 2014
não votou.
Foi duro reconhecer que ninguém
está cuidando de minha segurança, ou da educação das crianças... Papai Noel não
existe! É preciso arregaçar as mangas e fazer o trabalho que precisa ser feito.
É preciso ser a mudança que quero ver acontecer no mundo. Participo das
decisões políticas em Conselhos, Fóruns, Consultas Públicas.
Ou a gente faz parte da solução ou somos o problema.


